Portugal

Viagens aéreas em trabalho têm uma grande pegada climática mas as maiores empresas portuguesas continuam a descurá-la

Março 15, 2023
Empresas multinacionais continuam sem apresentar planos credíveis para reduzir impacto climático das viagens aéreas dos seus funcionários

Pelo segundo ano consecutivo, nenhuma das 13 empresas portuguesas incluídas no Ranking Viajar Responsavelmente definiu objetivos para reduzir as emissões decorrentes das viagens aéreas em trabalho dos seus funcionários, conforme revela a edição de 2023 deste ranking elaborado no âmbito da Campanha Viajar Responsavelmente.

A nível global, apenas 50 empresas das 322 analisadas definiram objectivos para reduzir a pegada climática das deslocações dos seus empregados. Destas, apenas nove se comprometeram a reduzir especificamente a pegada das viagens aéreas, reduzindo o seu número. Apenas quatro empresas desta seriação alcançam o palmarés – isto é, fazem o reporte das emissões das suas viagens aéreas, e comprometem-se a reduzi-las em 50% ou mais até 2025 (em relação a 2019) –, nomeadamente a Novo Nordisk (farmacêutica dinamarquesa), a Swiss Re (financeira suíça), a ABN Amro (financeira neerlandesa) e a Fidelity International (financeira britânica). Isto não é suficiente para estas empresas cumprirem a sua quota parte na manutenção do aquecimento do planeta abaixo dos 1,5°C.

Nesta edição do ranking, em que pela primeira vez foi considerado o reporte dos efeitos não-CO2 da aviação – que incluem a emissão de outros gases com efeito de estufa, tais como óxidos de azoto e vapor de água, bem como a formação de contrails (rastos de condensação) que têm um efeito de aquecimento da atmosfera –, de entre as empresas portuguesas estão mais bem classificadas duas que reportaram também esses efeitos (Galp Energia e NOS), fazendo parte assim do restrito grupo de 40 empresas que em termos globais o fizeram. Embora positivo, a ZERO considera que este reporte só tem impacto se estas empresas assumirem o compromisso de reduzir as suas emissões de gases com efeito de estufa por motivo de viagens aéreas.

O impacto climático das viagens aéreas vai, de facto, muito além das emissões CO2: estima-se que os efeitos não-CO2 sejam responsáveis por metade ou mesmo dois terços do total do aquecimento global decorrente da aviação – ou seja, equivalem a pelo menos o efeito das emissões CO2. Contudo, muito poucas empresas (11% das presentes no ranking) contabilizam estes efeitos.

As empresas portuguesas presentes no ranking – este ano há quatro novas (EFACEC, Jerónimo Martins SGPS, Mota Engil e Altri SGPS S.A.) – obtiveram todas classificações medíocres, C e D (num total de quatro classificações, de A a D), tal como no ano passado. Contudo, houve uma ligeira melhoria na nota, mas não foi suficiente para as retirar das piores classificações, sendo que a Altri SGPS S.A. e a Mota Engil estão no grupo das mais mal classificadas, e esta última está mesmo na pior posição do ranking global no seu sector (construção e engenharia).

A nível nacional, a posição das empresas no ranking também se alterou no ano passado havia mais empresas ex-aequo, que este ano estão dispersas por mais posições. A Galp Energia e o Banco Comercial Português viram a sua posição subir, sendo agora as mais bem classificadas ex-aequo, destronando a Jerónimo Martins SGPS que passou para a segunda posição. À excepção da NOS, que manteve a sua posição nacional, todas as restantes empresas viram a sua posição descer. As empresas que entraram pela primeira vez nesta edição do ranking ocupam as posições mais baixas.  No global, no seu posicionamento final, as empresas mantêm-se aquém das medidas necessárias para a diminuição do impacto climático.

De notar que o ranking de 2023 acrescentou dois novos indicadores de avaliação: o reporte de emissões não-CO2 (apenas a Galp e Energia e a NOS o fizeram) e o reporte das emissões à CDP uma organização que gere o sistema de divulgação global de emissões (todas as empresas portuguesas no ranking o fizeram).

A tabela mostra as empresas portuguesas incluídas na edição deste ano do Ranking Viajar Responsavelmente e a respectiva classificação.

Posição Nacional Empresa Classificação Pontuação

(máx: 14)

Variação posicional face a 2022
1 Galp Energia C 5
1 Banco Comercial Portugues C 5
2 Jerónimo Martins SGPS C 4,5
3 NOS C 4
3 Grupo EDP C 4
4 Redes Energéticas Nacionais C 3,5
4 Caixa Geral de Depósitos C 3,5
5 Sonae C 3
5 Efacec Energia C 3 Nova
6 The Navigator Company D 2
6 Corticeira Amorim SGPS D 2 Nova
7 Mota Engil D -0,5 Nova
7 Altri SGPS S.A. D -0,5 Nova

 

A classificação negativa acontece quando as empresas não reportam informação suficiente relativamente às emissões decorrentes de viagens aéreas ou têm emissões acima das 150.000 tCO2 e não têm pontos positivos nos restantes indicadores, como é o caso da Mota Engil e da Altri SGPS S.A..

A ZERO lamenta, assim, que as empresas portuguesas estejam ainda longe de tomar as medidas necessárias para diminuir o seu impacto ambiental no que concerne às viagens aéreas em trabalho. Mesmo considerando que em Portugal a alternativa ao transporte aéreo, em especial quando falamos de viagens internacionais dado o carácter periférico do país na Europa, nem sempre é viável, nomeadamente em transporte ferroviário, o posicionamento das empresas portuguesas mostra que muitas outras medidas possíveis não estão a ser tomadas, nomeadamente um compromisso de diminuição de emissões e o reporte de todas as emissões (CO2 e não CO2).

De facto, as empresas fazem vista grossa aos danos climáticos causados pelos voos em trabalho. A maioria delas toma poucas ou nenhumas medidas em matéria de uso que fazem da aviação, minando qualquer objectivo que tenham em termos de sustentabilidade geral nas deslocações dos seus funcionários. Poucas empresas relatam os efeitos não-CO2, a parte oculta do iceberg do pleno impacto climático da aviação.

Panorama nacional é mau, mas o global também não é bom

A nível global, a Volkswagen, a KPMG e a Johnson & Johnson são as três empresas com mais emissões no Ranking Viajar Responsavelmente, sem objetivos de redução das emissões decorrentes de viagens em trabalho. Contudo, definir tais objectivos é possível, como mostra o exemplo de empresas de dimensão e sector semelhantes, como é o caso da Deloitte e AstraZeneca, e necessário.

O estudo que acompanha esta edição do ranking mostra que se apenas 10% do total empresas com maiores emissões no ranking definirem objectivos de redução das emissões em 50%, será meio caminho andado para alcançar uma redução de 50% das emissões por motivo de viagens aéreas em 2025. Reduzir as emissões decorrentes da aviação é agora mais premente do que nunca, se pretendemos evitar o aquecimento global para além dos 1,5°C.

Nos anos críticos até 2030, a maneira mais eficaz de reduzir as emissões da aviação é viajar menos de avião, uma vez que a utilização de combustíveis sustentáveis e de aeronaves com “tecnologia de emissões zero” só começará a ter expressão apreciável após 2040, e recorrer a mecanismos de compensação de carbono (offsetting) é ineficaz e enganoso, pois não faz reduzir as emissões.

A Campanha Viajar Responsavelmente convida as empresas a definirem objetivos ambiciosos de redução das suas emissões por motivo de viagens em trabalho, substituindo sempre que possível o transporte aéreo por ferroviário, evitando a ponte aérea Lisboa-Porto, e privilegiando a videoconferência como substituto de viagens de longo curso.

Campanha Viajar Responsavelmente promove a responsabilização pelas empresas do impacto climático das viagens de avião dos seus funcionários

A Federação Europeia de Transportes e Ambiente ​(T&E), no âmbito de uma coligação de parceiros globais, da qual a ZERO faz parte, lançou a Campanha Viajar Responsavelmente em 2022, que inclui a edição anual deste ranking. A campanha almeja que as empresas definam objetivos de redução das emissões afectas às viagens aéreas em trabalho em 50% ou mais até 2025, ou antes, em relação aos níveis pre-Covid.

O Ranking Viajar Responsavelmente deste ano classificou um total de 322 empresas americanas, europeias e indianas de acordo com dez indicadores, relacionados com as emissões, objectivos de redução e reporte. As principais empresas globais no contexto das viagens aéreas, de 17 países do ranking, representam uma parte considerável das viagens corporativas a nível mundial. A análise põe a descoberto os esforços significativos que algumas empresas globais ainda têm de pôr em prática para reduzir as suas emissões decorrentes de viagens aéreas.

Às empresas é atribuída uma classificação de A (10,5 – 14), B (6,5 – 10), C (3 – 6) ou D (-1 – 2,5) . Na edição deste ano do ranking foi atribuída a classificação A a 11 empresas, B a 38, a esmagadora maioria, 212, foi classificada com C, e 61 empresas com D.

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